Introdução
O entrevistado do site é o médico Guilherme Durães Rabelo, formado em 1975 pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Com Residência e Especialização em Cirurgia Geral e do Trauma é também Especialista em Medicina de Tráfego, a partir de 2007.
É professor assistente da Faculdade de Ciências Médicas onde estudou e, atualmente, Presidente da Associação Mineira de Medicina de Tráfego – AMMETRA, Regional da ABRAMET no Estado de Minas Gerais.
1. Como surgiu seu interesse pela Medicina de Tráfego e como começou o seu relacionamento com a mesma?
DR. Guilherme: O meu interesse pela MT foi mais uma oportunidade que surgiu, a partir do momento em que a Faculdade de Ciências Médicas, em outubro de 1998, resolveu iniciar os Cursos de Capacitação. Na época, Medicina de Tráfego era quase que completamente desconhecida dos médicos, mas a necessidade de realizar o curso fez com que a Faculdade indicasse uma coordenação médica para o mesmo, convidou, então, três professores da escola, entre os quais eu estava, para a coordenação, sendo que, com certeza, nenhum de nós entendia bem o que seria a especialidade. Foi feito o primeiro curso, um pouco confuso, com coordenadores totalmente perdidos pois, a pior situação, é “estar” sem entender. O sucesso de público, entretanto, induziu a faculdade a realizar outro curso. Fui, novamente, convidado e, na reunião inicial, sugeri que, dos três, somente um coordenador assumisse a responsabilidade, pois achava que com mais de um coordenador, o curso não teria nenhum. Talvez, por amizade ao Paulo de Castro, coordenador do setor à época, fui escolhido. Fizemos o segundo curso e a partir daí não paramos mais, completando um total de 20 cursos, sendo o último em fevereiro de 2008, quando a Resolução 80 foi substituída pela 267. Com esta responsabilidade da coordenação, fui adquirindo, aos poucos, interesse particular pela especialidade, conhecendo seu conteúdo, suas dificuldades e principalmente aproximando-me da ABRAMET, que na presença constante e no apoio integral dos amigos Dr. Flávio Adura e Dr. Alberto Sabbag, fizeram ver a importância do crescimento da especialidade e, principalmente, que poderíamos e deveríamos chegar mais longe.
À medida que prosseguia com os Cursos foi aumentando minha responsabilidade e não mais me sentia à vontade de coordenar curso em Medicina de Tráfego e não ser um especialista, achava que perderia a credibilidade e, a partir daí, resolvi prestar prova para título de especialista e comecei a estudar, agora como aluno e ainda sob pressão de ter que passar. A prova seria em São Paulo, num sábado á tarde, 13:30 h. Fiz inscrição, reservei vôo, como bom mineiro logo para cedo, vôo saia da Pampulha às 8:00 h e dediquei-me ao estudo. Dia da viagem, Belo Horizonte com tempo frio e chuvoso, aeroporto da Pampulha fechado. Tempo passando, preocupação e começam surgir outras possibilidades de embarque utilizando aeroporto de Confins. Desespero, confusão, vários ex-alunos também aguardando para o embarque, linhas aéreas oferecendo embarque via Confins. Parte da turma optou pela troca de vôo e rumaram de ônibus para Confins, outros, um grupo menor, ficou na Pampulha, inclusive eu. Tempo limpo, embarque autorizado, rumo à São Paulo, problema resolvido, daria para chegar com folga ao local da prova. Aproveitei e estudei mais durante o vôo, inclusive umas das questões de prova estudei na viagem, lógico, acertei. Vôo rápido, menos de uma hora, vi que estava esticando demais, tipo assim, carro em “ponto morto”, lento, tempo passando, nesta hora relógio não para, única saída era pular do avião. São Paulo, como sempre, tempo ruim, chuva, sem teto para pouso, mais desespero, que agonia a proximidade do seu tempo limite. Avião no chão, não foi queda, corrida para o táxi, todos no mesmo carro e pressão para o motorista, esquecemos até que a nossa especialidade orienta “não correr”, “respeite a sinalização”. Chegamos ao local da prova, já com os portões fechados, às 13h35, tolerância era até 13h45, todos estavam prontos pra iniciar as provas, fomos os últimos, que sufoco. Os outros, que optaram por Confins, achando que seria vantagem, não chegaram a tempo e perderam a prova. A prova, capítulo à parte, parece tortura da GESTAPO, 100 questões, 5 horas sentados em cadeiras duras, sem poder mexer e, de lanche, um copo de água e um bombom (quando eu gosto de comer uma caixa). Enfim, cumprida a tarefa, prova feita, aprovado com título em 02 de janeiro de 2002.
2. A Regional da ABRAMET em Minas Gerais, criada em 2007e da qual o senhor é o Presidente, é, hoje uma realidade. Como isso começou e que dificuldades tiveram que ser superadas?
DR. Guilherme: Desde o início fui, totalmente, envolvido com a especialidade Medicina de Tráfego: tudo me atraia e, de uma visão geral do assunto, que existia no início, passei a conhecer muitos médicos, de vários estados, e suas dificuldades em relação à atividade Medicina de Tráfego. Minas Gerais era um dos poucos estados que não tinha representação da ABRAMET e era fundamental pela importância do estado, criar uma Regional. Em uma primeira tentativa, dois grupos distintos, com interesses diferentes, tentaram criar duas associações que, entretanto, não obtiveram apoio da Representação da ABRAMET e, como conseqüência fracassaram. Com os Cursos de Capacitação, troca de idéias com os alunos, e a sensação da necessidade de sua existência, principalmente pela orientação e apoio da ABRAMET, foi criada a partir de 14 de setembro de 2007 a Regional da ABRAMET-MG, Associação Mineira de Medicina de Tráfego (AMMETRA), com estatuto afinado com o da ABRAMET, com os mesmos objetivos, solidária com os propósitos de fazer crescer a especialidade, com base científica, fortalecida pela moral e ética. A Regional, que começou com atraso, não poderia iniciar com inibição e tínhamos que ser agressivos para recuperar o tempo perdido. Formamos um grupo administrativo, um site, intensificamos os cursos, divulgação por e-mail e, tudo isso surtiu efeito favorável com crescimento pelo interesse pela especialidade. Falava-se mais sobre o assunto, o que permitiu que, neste pequeno espaço da criação até agora, fossem realizadas três jornadas, de alto nível científico e com uma freqüência de público superior aos eventos realizados em outras partes do país e, o que era melhor, com palestrantes predominantes de Minas Gerais. A especialidade cresceu, conseguimos aprimorar cientificamente a atividade médica e a Regional AMMETRA se impôs no Estado como representante da especialidade médica.
Dificuldades, não foram poucas, mas estão sendo, gradativamente, superadas.
3. O Congresso da ABRAMET, deste ano, será realizado em Belo Horizonte.
Qual foi a sua participação para que isso se efetivasse e quais os planos para as futuras atividades?
DR. Guilherme: Trazer o VIII Congresso da ABRAMET para Minas Gerais tem sido nossa maior alegria, demonstra a confiança que a diretoria da ABRAMET tem dispensado à nossa Regional, que ela ajudou criar, que tem dado todo apoio, principalmente pela presença constante nos cursos, eventos etc. Minas Gerais, tímida como é a característica dos mineiros, não faltará ao compromisso de fazer elevar, ao topo, mais este evento e, com certeza, teremos um Congresso surpreendente, no que tange às inscrições, organização e, principalmente, ao conteúdo científico. Não vamos considerar a excelente comida mineira e a melhor cachaça. Na verdade, a conquista é através das realizações e a AMMETRA tem se esforçado para mostrar que viemos para ficar, com um grupo forte e que vai se impor nacionalmente.
Os planos para o futuro vão como “explosão cerebral”. Mantemos o propósito de fazer o aprimoramento científico da especialidade, queremos um profissional conhecedor da sua atividade. Vamos manter os cursos de pós-graduação em Medicina de Tráfego (duas turmas que se formam em agosto de 2009 e duas turmas que se formarão em março de 2010, com possibilidade de novas turmas, mais duas jornadas para o ano de 2010). Continuar a árdua tarefa junto ao Conselho Regional de Medicina, Conselho Federal de Medicina, Associação Médica Brasileira, DETRANs e CONTRAN no sentido de que a obrigatoriedade de exercer a atividade em Medicina de Tráfego somente possa ser feita por especialista com prazo limite até 2013 para os capacitados. Tentar fazer as correções que hoje interferem e alteram os rumos da Medicina de Tráfego no campo da ética e do profissionalismo, pressionando CRM-MG e DETRAN-MG para a criação de comissões de fiscalização da atividade científica dos médicos e psicólogos e fiscalização do funcionamento das clínicas para avaliação do condutor. Já foram iniciadas as conversações, e achamos viável, com a Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais visando à realização da Residência Médica em Medicina de Tráfego. Trabalhar para formar um grupo forte dentro da AMMETRA, para que ela não sofra alteração de rumo quando da sucessão, que deverá ocorrer em 2011. Estar mais próximo da ABRAMET, ajudando-a nas decisões, no sentido de como fazer, cada vez mais, o candidato à especialidade em Medicina de Tráfego aprimorar-se por período maior ao já exigido, além de realizarmos prova de título somente nos congressos. Com o otimismo de termos um excelente VIII CONGRESSO, sediar, em Belo Horizonte, o CONGRESSO INTERNACIONAL de 2013, dando nossa ajuda, confiantes de que a diretoria da ABRAMET possa ter reservas, retaguardas, opções para mostrar ao mundo o quanto a Medicina de Tráfego tem avançado em nosso país, mais uma ambição de uma jovem regional da ABRAMET (como toda mineira, romântica, tímida e sonhadora...)
4. O senhor, como cirurgião de trauma, vivencia, diuturnamente, as conseqüências que os acidentes de trânsito acarretam na população. O que é possível fazer para conter a verdadeira epidemia que os mesmos representam?
DR. Guilherme: Indiscutivelmente temos evidenciado mudanças radicais no comportamento das pessoas, na evolução das doenças, na responsabilidade e no interesse pessoal dos governantes causando descontrole e repercussões na preservação da vida. Estas bruscas mudanças vêm ocorrendo ao longo do século passado e século XXI e observamos endemias, pandemias, com surgimento de doenças novas, retorno de doenças já consideradas controladas, resistência aumentada das bactérias e vírus ao tratamento, por conta de política pública à saúde mal elaborada.
Todas as doenças matam. O câncer, a AIDS, as doenças coronarianas, a gripe “suína”, e são responsáveis por altos índices de mortalidade e morbidade em todas as faixas etárias. Entretanto, nenhuma outra doença pode ser considerada mais catastrófica do que aquela que causa maiores repercussões negativas, com elevadíssimos percentuais de morbi-mortalidade, incapacita número excessivo de pessoas, possui níveis de internações que superam a capacidade dos hospitais e traz transtornos psicológicos, financeiros e estruturais tanto ao indivíduo como a seus familiares e, ainda, onera brutalmente os cofres públicos, como a chamada “DOENÇA DO SÉCULO”, que tem como causa a falta de respeito à integridade física das pessoas.
Essa doença, que é uma realidade mundial, espalha-se rapidamente e sem piedade, interrompendo, abruptamente, a possibilidade de vida longa ou incapacitando para uma vida normal, assunto este, que é tratado nos chamados países “ricos” com seriedade, com leis severas, punições, políticas de educação e prevenção, e o que é melhor, não é somente tratado, pois as regras se fazem valer para todos e cumprir por todos.
A “DOENÇA DO SÉCULO”, que viola a integridade física das pessoas, chamadas de vítimas, acontecem em decorrência das agressões, falta de compreensão e tolerância entre seres humanos no trânsito, onde a pressa, irritabilidade e o estresse estão evidentes. Colisões nas suas várias formas e o mais cruel e desprezível exemplo desta violação, que é a utilização de métodos penetrantes como arma de fogo. Esta doença causa trauma, lesa as estruturas do corpo humano, às vezes várias estruturas caso em que a nossa vítima é considerada politraumatizada. No mundo, esta doença acomete a faixa etária mais jovem, no período de adaptação de adolescente para a fase adulta onde parte importante está no início do seu ciclo produtivo.
No Brasil a situação não é diferente: o trauma é uma triste realidade. Morre-se e incapacita-se muito pelas agressões. Caracterizamo-nos por não antecipar os acontecimentos, não ampliamos as vias de circulação de veículos e deixamos que a frota supere sua capacidade, criamos a “lei seca”, mas não temos como colocá-la totalmente em prática, regularizamos a profissão de moto-táxi sem ter regras rígidas de controle, colocamos imposições à comercialização de bebidas alcoólicas nas estradas, mas não podemos fiscalizar, fazemos as leis sem convocar a sociedade para ajudar e dar sua opinião e, então, vamos seguindo um caminho preocupante onde o básico, o grave, que é a ocorrência de mortes, não tem qualquer perspectiva de melhoria. O Brasil se coloca bem no ranking mundial como país violento. As mortes pelas chamadas causas externas, agressões, acidentes em geral e os de trânsito em particular, intoxicações e demais, superam em muito as mortes ocorridas nas grandes guerras.
5 - E como está o seu Estado, Minas Gerais, nesse contexto?
DR. Guilherme: Minas Gerais, um dos estados mais importantes da União, tem um comportamento semelhante ao de outros estados. Há anos temos observado crescente aumento da agressividade, as agressões físicas com arma de fogo e arma branca continuam fazendo suas vítimas, agora com maior intensidade e poder de destruição. Os acidentes envolvendo veículos, colisões, capotamentos, atropelamentos tornam nosso Estado quase um campeão nacional. As causas são várias, aumento excessivo no número de veículos, que superam a capacidade de circulação, as cidades não projetadas, muitos cruzamentos, violação constante das leis do trânsito, como avanço de semáforo, velocidades na condução do veículo superior à permitida, estradas com nível de conservação precário, veículos sem condições técnicas adequadas, além do fato de não se fazer, como antes, revisão dos veículos, condições e irregularidades do condutor; podemos, ainda, citar a imperícia, negligência, alteração de comportamento devido ao estresse, pressa, irritabilidade além de falta de condição clinica do condutor e falta de controle e fiscalização das suas doenças (diabetes, epilepsia, transtornos oftalmológicos-neurológicos-psiquiátricos), uso mal controlado de medicamentos e de drogas ilícitas, falta de ética na condução, falta de controle do atendimento médico, falta de diretrizes e maior participação dos médicos não especialistas em medicina do tráfego na orientação futura do condutor.
Infelizmente, Minas Gerais, e principalmente Belo Horizonte, vêm passando por momentos preocupantes, com índices de mortalidade e morbidade crescente de forma assustadora e com pouca possibilidade de melhoria, pois não existem projetos a médio e longo prazo tanto preventivo como educativo; o que vemos são movimentos da mídia próximo a datas específicas como Natal, Carnaval e Semana Santa, ficando, o resto do ano, sem assistência, como se as mortes fossem algo bem natural, esquecendo que a violência nas estradas mata mais que as doenças episódicas e crônicas e a faixa etária mais atingida é a dos jovens, que o custo com o atendimento a estas vítimas é bem superior ao custo do controle das causas do acidente.
Vemos número de vítimas superior à capacidade de atendimento, situação que denominamos de DESASTRE e que a partir do volume de vítimas e repercussões que causam levam a pensar em CATÁSTROFE. Os hospitais referenciados ao trauma com dificuldades no atendimento por deficiências técnicas, não conseguem fixar o profissional médico devido à baixa remuneração e precárias condições de trabalho e vamos percebendo que as nossas vítimas que se tornam ainda mais vítimas por não terem, por parte dos políticos, a preocupação com as fases primárias e secundárias das causas dos acidentes, tendem a ter no pós-acidente dificuldade no atendimento médico.
O Brasil, como um todo, tem que passar a se preocupar com as mortes por causas externas, mortes por violência, mortes no trânsito; não podemos ficar simplesmente acreditando que algumas leis, inventadas à última hora, e são várias, vão “pegar” no tranco, para tanto, temos que nos preparar antes, temos que fazer cumpri-las, temos que fiscalizar, que mudar o comportamento dos condutores através de trabalho educativo e preventivo, não podemos acreditar na redução populacional, que as grandes guerras fazem na busca por maior poder econômico e que esta redução populacional no Brasil tem sido feita pelas mortes nas estradas, por ganho político nas urnas.